sexta-feira, 6 de abril de 2007

A Ordem da Mosca ( cap. I ) - Te Saúdo Seção da Tarde

Com uma toalha de rosto meio encharcada, coisa de minutos
travava um épico embate com aquele emperrado registro do
chuveiro o agora desencardido Estevan. No baneiro,evaporava
todo o cloro que a rede de abastecimento não tinha o
menor pudor de adicionar como encargo extra às contas
domiciliares. Tateava à esmo,cerrando os olhos escarlates
de reação alérgica, procurando aquela utilitária e fedida
toalhinha que sabe-se lá para que fins escusos já
a havia utilizado Desembaça absortamente o espelho na
patética contemplação das partículas do quase mofado pano
que um dia havia chamado de toalha, que pungentemente
aderiam à superfície sebosa daquele vidro sujo. Estava
quase gostando de ficar ali meditando acerca das relações
eletro-valentes em uma insólita e complexa analogia aos
desgarrados felpos de toalha bolorenta. E foi neste
contexto enevoado que um estridente e irritante chamado
telefônico rompia toda lìrica encapsulada por aquele
azulejo pegajoso:
-...Eu disse que já vai,caralho!! Praguejava tentando sem
sucesso envolver os quadris secos (de tão magros) com a
ínfima toalha.
-Alô, é Estevan?Perguntava uma radiofônica voz que
parecia vinda do além devido à um chiado crônico na ligação
que a relapsa prestadora não dava conta de sanar.
-Fala cof..irmãosinho!Cof..Tossia Estevan.
-E aeh, malandro? Aqui é Andrew.Estou ligando, pois tem
gente que não dá mais sinal de vida!
-Dá um tempo aeh,brother.Cof..A fumaceira do chuveiro era
tanta que .. Cof,cof... Eu parecia estar era em Awshvitz.
-O quê que têm witz? A ligação tá muito ruim,velho! Repli
cava a radiofônica voz do além.- Mas escuta,cara...em
relação à aquele “assunto”, alguma novidade?
- Não se trata de qualquer novidade. O que eu tenho para
nós é uma solução quase milagrosa, he,he... Não se conteve
o recém astuto Estevan, que para ornamentar a evasiva aura
do seu “engenhoso plano”, tratou de sugerir que não
falassem,por precaução, ao telefone.-Oito horas no
Tamoio’s está bom? Quem chegar por último paga a ceva!
-Certo... No Tamoio’s. Abraço.

Escaços feixes de claridade difusa embrenham-se intermitantemente nas lacunas que compunham a copa daquela outrora jovem figueira e que certa feita servira de testemunha à um ilícito e fruitivo abandono à atividade corpórea entre um casal de namorados que tinha por sigilo, assíduos e impetuosos afagos após o culto da Igreja de Confissão Pentecostal do Sexto Distrito. Com efeito, era esse mesmo recôncavo que agora, perdido de cupim acolhia o retorno ao ninho da
brava bem-te-vi que realizando solenes evoluções antes do pouso, trazia consigo, um suculento e nutritivo verme para a ceia familiar. Pois bem, esta era a Praça
do Peixoto: uma nostálgica coleção de seringueiras,
vespeiros, merda de cachorro e onde incorriam-se torpezas de toda ordem à exemplo dos preservativos e seringas que espalhavam-se entre os arbustos. Desarmo-
nicamente orquestrava-se, naquelas adjacências o dissonante coro de camelôs,ambulantes e fiscais de fim-de-linha-”Délcio Borja,via americana sai às nove!’...”barato o oliú!”...”Vai uma lixinha pros pé, visinha?”...”Vamo liberar a roleta subindo bem àcima!” Quase em fronte ao ponto do Rápida Marina estava
o Tamoio’s, boteco que não deixava-se sucumbir,nem mesmo com as atrozes investidas da Secretaria da Saúde.
-Mas rapaz, você sofre de distúrbio de fusos horários... A observação exalava hálito de cinzeiro e de onde mais poderia vir senão da paciência mórbida de Andy? Ao que replicava com insolência o suorento e atrazado Estevan:
-Gin Tônica? Vem cá, isso não é bebida de viado?
-À uma hora atráz estava gelada. Vai um gole “aeh”?
-Digamos assim, que a pontualidade não seja algo de exatamente invejáv... e mais uma vez o pitoresco re-
tratamento era desarticulado,”rham”... se permitir o
encejo, diante dos portentosos atributos de Anabel, a garçonete,que apoteoticamente surgira de tráz da cortina de vime. Ah... Anabel, ou como preferia naquele
suspiro monótono quase sussurrar-...’nabel.

Nenhum comentário: