sexta-feira, 6 de abril de 2007
A Ordem da Mosca ( cap. V ) - Young America, adeus.
Estevan surge desconfigurado junto ao jornaleiro que proclamava aos quatro ventos mais um sanguinolento manjar à base de vìceras para o sensacionalista apetite da população:_ Manchete do dia! Acidente de trânsito envolvendo calouros da A.S.L.O High School mata seis! O sol ainda cândido ascende lentamente à vidraça de um prédio em monótona escalada, patéticos transeuntes dirigiam-se apressadamente ao encontro de suas mórbidas rotinas diárias enquanto Andy reconstituia imagens de garotos com luvas de borracha e lençóis feito capa preparando-se para enfrentar o mais temido dos vilões, ninguém menos que Seu Marcílio do armazém.-Extra!Extra!Rodovia da Morte! Acentuava o vendedor do Clarim.- Seis estudantes morrem em acidente. Estranhamente sentira que tempo e espaço já não poderiam lhe fornecer as mesmas referências em órbita das quais gravitava o seu “Eu”, sequer sentia suas pernas que respondiam com voluntariedade à um emocional imperativo:-Fuja Andy! Ao contrário,uma onda de frio percorria-lhe os ossos diante de sua sombria inércia tremia o diário untado com a gelada sudorese das mãos.Temerosos, os olhos deslisavam bêbados de horror sobre aquelas catastróficas linhas e foi somente após uma longa e inútil reflexão que lhe escapara por uma fresta dos dentes antes serrados, a entreaberta constatação:-estevan tá morto. Contudo,indiferente à tragédia que se desenhava naquela manhã, havia um certo atrevimento naquele sol que insistia em aquecer seu rosto para sempre gelado pela fúria da perda.
Crianças lambonas teimavam com seus pais disputando vorazmente o direito à um último algodão-doce que restarada escassa féria de um pobre diabo naquela tarde nublada de agosto, que entre um picarro e uma tragada no atávico cigarro de palha setenciava:-argudão doce!Numa cadência não menos que tediosa.-barato argudão!Floristas desarmavam suas tendas,e num ruidoso lamento ensacavam as coroas excedentes à espera de algum familiar retardatário ainda aturdido por mais um ente que partira.Num assovio franzino, o vento precipitava-se ante o melancólico ranger de galhos das imensas araucárias, lembrando floreios de esgrima como no saudoso clássico Simbad, o Marujo._ Já estamos fechando. Faltam apenas quinze minutos! Advertia o porteiro.-Não se demore,filho. Não hospedamos visitantes, he,he... Aposto que não apreciaria passar a noite em companhia de corujas e dos...Mas Andy isolara apenas, na fala de praxe daquele velho rabujento,a crucial informação:-...apenas quinze minutos! Então era isso, você que ainda nem elaborou a perda de um quase irmão, possui míseros quinze minutos para encontrar o endereço, prestar-lhe apressadas homenagens e retornar,concluia à si mesmo Andrew josh Sorrento.
Vivia na morte do amigo o epíteto da sua. À esta incorruptível desidentificação com tudo que é efêmero e conhecido, havia um universo rendendo a mais prostrada reverência. “A morte possui seu próprio milagre”, ouvira certa feita algum intelectualóide de boteco proferir entretaças de vinho dos mais ordinários e “trintonas” com os cabelos sumariamente oxigenados. O ponto era que aos olhosdo mundo, sua dor parecia estar razoavelmente equalizada,considerando os reincidentes traços sombrios que compunhamtoda a personalidade melancólica: ao longo da vida,Andy já havia frequentado todo o métier psicanalítico que a relidade financeira de sua casa pudesse comportar e pelo menos oficialmente, nunca recebera desses profissionaisum diagnóstico que satisfisesse alguma classificação patológica específica. Características comportamentaisque não atendiam nescessariamente à um código delimitado,mas que entretanto apresentavam um genuíno poder de embaraçar as opniões de cisudos especialistas, garamtiam-lhe profundamente o mais refinado sentimento de inadequação social. Haveria, por consequência, em algum confim da dor estética, meio de emitir ao mundo um sintoma dessa abstrata agonia que sua impressão de realidade encontrava-se imersa?
Cada passo sobre as vielas emlameadas à pro-cura do mármore que deveria conter a singela legenda “ Estevan Maroto Jr. 1981-2003, Saudade dos que te amam” redesenhava um cortejo íntimo escoltado pela discreta romaria de pensamentos conflitantes. Enevoadas imagens pertencentes à iniciação púbere comum à infância de ambos e que em dado momento mesclavam-se à um vertiginoso e compulsório sentimento de religiosidade desbotavam-se em matises sépias de memória, oxidação e ruína. Uma encabulada garoaCedia espaço à pesados pingos de chuva que estouravam na superfície frágil de seu rosto sem que contudo expressassesequer uma mínima contração facial, uma sutil indiferença exterior que contracenava com sua desintegração psíquica anunciava algo de enfandonho:“O Homem-mosca está de volta.”
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Um comentário:
parabéns Cris ^!!!^
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